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sábado, 13 de outubro de 2012

Almeida Garrett


Sobre Folhas Caídas
O amor vivido.
É neste livro que Garrett atinge o fastígio do lirismo. Amava agora, como só sabe amar um homem maduro que se apaixona violentamente. A Viscondessa da Luz, D. Rosa de Montufar, obrigou o poeta a semear nestas poesias «luzes» e «rosas» a granel. Foi a sua principal inspiradora, porque há outras. Com elas entretém Garrett um diálogo vivo, cheio de realismo, muito embora só ouçamos a sua voz, como só se ouve a de Aires Rosado numa cena da conhecida peça de Gil Vicente Quem tem Farelos?. Mas não nos é difícil, contudo, adivinhar o que elas lhe responderiam. Garrett cantou em Folhas Caídas o amor que viveu e como o viveu.

Amor intenso.
Este amor que se identifica com a mesma vida, é em Garrett vulcânico, tempestuoso, intenso, tão intenso que faz sofrer, que quase mata, que é capaz de o atirar até para os profundos do Inferno.

Amor carnal.
Garrett, em Folhas Caídas, ama com a alma e com o corpo, com os olhos, com os ouvidos, com os sentidos todos. Sem preconceitos, ultrapassa os idealismos petrarquistas e, se não ignora a mulher anjo, conhece muito mais a mulher mulher.
Estávamos habituados a que os poetas analisassem os efeitos do amor na alma. A fenomenologia da paixão amorosa repercutida nos sentidos foi Garrett o primeiro que a cantou a valer.

Temas do Romantismo


Temas do Romantismo

Culto da Idade Média. O romantismo deixou de ter admiração por tudo quanto era greco-romano e baniu o uso da mitologia. A Idade Média, tempo admirável em que o povo ajudava os reis a criar nações e em que os mesteirais, organizados em corporações, tinham real valor, seduziu com as suas narrações cheias de peripécias os românticos, visceralmente opostos aos absolutismos e partidários em política da soberania do povo.
Esta evasão para os tempos medievos proporcionou aos escritores o contacto com lugares, factos e tipos capazes de inspirarem a imaginação mais fria: castelos musgosos, lendas e tradições, cavaleiros, monges, cruzados, mouros, judeus.
Note-se, porém, que os temas de actualidade não foram postergados (por exemplo em Viagens na Minha Terra, de Garrett) e até estiveram em voga nas poesias revolucionárias dos epígonos do romantismo, para só falarmos no caso português.

Descoberta da Paisagem. O romantismo descobriu a paisagem tal qual é no particular, e pôs de parte a natureza sempre igual e artificial dos clássicos. Postergou-se  o bucolismo de «ervas verdes e rios tranquilos». Agora, o entusiasmo vai para a paisagem agreste, exótica, para a selva virgem com a sua típica desordem, com suas asperezas e impetuosidades, com suas cataratas e rios caudalosos. A paisagem nocturna, sepulcral, luarenta, adapta-se aos sentimentos melancólicos dos autores. Às vezes, num semi-panteísmo, o  romântico vê-se embebido na mesma paisagem, a fazer um todo com ela. Ela como que se transfigura e se transforma em símbolos. O poeta romântico tem com ela uma espécie de contacto sensual que o leva ao êxtase.
A procura desta paisagem levou o escritor romântico a evadir-se no espaço e a sentir-se bem nos países de tom exótico, de gosto bárbaro e primitivo cuja cor local pinta com prazer e transmite com verdade.

O homem real. Sabemos que a beleza para o escritor clássico residia na imitação da natureza, não no particular, mas no universal. Em vez de criar tipos verosimilhantes aos seres individualizados e reais, idealizava seres com todas as perfeições e sem quaisquer defeitos.
O autor romântico procede de maneira diferente: desenterra, cria tipos humanos autênticos. Sente gosto em particularizar, em referir com pormenor os traços individuais dos heróis, sendo assim fiel à história e à cor local. Dá até preferência aos que vivem fora da lei, aos aleijões físicos e morais: o ladrão, o pirata, o assassino, o traidor, o perjuro, o incestuoso, o adúltero, a prostituta, o sacrílego, o cego, o corcunda, o mutilado. Às vezes, não teme aliar a elevação de sentimentos à hediondez física (como acontece no Quasimodo de Nossa Senhora de Paris e no Homem que Ri, de Vítor Hugo).

Pessoalismo e melancolia. O romântico porfia em expandir o que nele há de mais pessoal, desde a sensibilidade e os voos da infância até aos impulsos do subconsciente. Não admira, pois, que mostre especial predilecção pela melancolia, de todos os sentimentos o mais sentimental. Daí que, ao contrário dos clássicos, amantes da claridade mediterrânica, prefira ambientes de nebulosidade nórdica, o entardecer, o escurecer, a noite, as florestas sombrias, as cavernas, os agouros, os sonhos.

Exaltação do que é nacional e popular. A cultura francesa do século XVIII tinha unificado espiritualmente a Europa; Napoleão Bonaparte tentou a unificação política. Como reacção, os escritores românticos procuram exaltar tudo o que é nacional, tudo quanto é popular. E crêem que a alma dos nacionalismos europeus incarnou no povo na Idade Média e no povo se tem mantido inalterada. O popular e o folclórico adquirem, desta maneira, um grande prestígio junto da nova escola.
Foi por isto que a literatura romântica cedo adquiriu um carácter cívico e patriótico e enveredou a pouco e pouco pelo historicismo, tratando com muito carinho figuras nacionais.

Liberdade de inspiração. O génio criador não pode estar sujeito a normas férreas, como eram as da estética clássica. Essas normas são totalmente banidas, pois convertem a arte num puro mecanismo. O escritor romântico voa nas asas da imaginação, dos seus sentimentos e instintos. Criará obra estritamente pessoal. Não admite mais a divisão dos géneros clássicos. Com excepção do soneto, que conserva, inventa novos agrupamentos estróficos. Opõe-se tenazmente à imitação paradigmática dos escritores gregos e romanos.

Confronto entre as tendências do classicismo e do romantismo:

Classicismo
Romantismo
A razão, a inteligência
O geral, o universal
O objectivo, o impessoal
A vontade, o heroísmo
A inteligência, as abstracções
A clareza, a ordenação
O paganismo
O culto da antiguidade greco-latina
O aristocrático, o nobre, o tradicionalista
O coração, a sensibilidade, a imaginação
O particular, o individual
O subjectivo, o pessoal
A melancolia, o abatimento
As sensações, a sensibilidade
O mistério, o sonho, a meditação
O cristianismo
O culto da Idade Média e dos tempos modernos
O popular, o pitoresco, a paisagem

Romantismo


Romantismo

«Foi na Inglaterra e na Alemanha que, em meados do século XVIII, alguns poetas voltaram as costas aos modelos do classicismo, inspirando-se na Natureza, tal qual a viam e não tal qual Horácio e outros antigos lha mandavam ver. O sentimentalismo subjectivo veio assim substituir a gama imensa, mas limitada, de temas catalogados pelos Gregos e Romanos. Nunca mais os escritores aceitariam temas impostos do exterior. Deixar-se-iam arrastar – isso sim – pela evocação do popular, do medievo, do exótico, pela exaltação da liberdade, pelo «eu», medida do Universo, pela fascinação do nada, do abissal, da morte, da noite.

Em Portugal
O início do romantismo em Portugal anda, extrinsecamente pelo menos, ligado às lutas civis entre miguelistas e liberais. Por duas vezes, depois da Vila-Francada e da Abjuração da Carta, muitos partidários de D. Pedro IV tiveram de exilar-se em Inglaterra e em França. Quis a Providência que entre esses emigrados estivessem os jovens escritores Almeida Garrett e Alexandre Herculano.

Psicologia do homem romântico
1.      O culto do «eu»
Contra o objectivismo absorvente e a sujeição às regras escravizantes dos neoclássicos, apregoam os românticos a independência, o espírito individualista, a violenta exaltação da própria personalidade. O «eu» é o grande, o máximo ser objectivo; o mundo externo terá apenas a realidade que nele projectar a inteligência e a imaginação da pessoa que o examina e o vê. Sem caírem de borco no idealismo filosófico, embrenharam-se, pelo menos, num idealismo poético. Na génese desta atitude está, sem dúvida, a concepção do «eu» da filosofia idealista de Fichte e Schelling.
2.      Ânsia de liberdade
Do acentuado individualismo do homem romântico brota naturalmente o desejo histérico de partir todas as cadeias que o prendem à colectividade. Daí a ânsia de liberdade em todos os sectores da vida: liberdade na literatura, na indústria, no comércio, na política, na consciência, na manifestação dos sentimentos e instintos.
a)      Liberdade política. A vontade do rei deixou de ser soberana para o romântico. O cidadão deve manifestar livremente as suas opiniões e ter mesmo desimpedido o caminho que o conduz à governança pública. Se for preciso, gritará contra os tiranos, promoverá revoluções.
b)      Liberdade moral. Para o romântico a norma de moralidade não é constituída pelos ditames da sã razão, nem muito menos pelas crenças religiosas. A única norma a que deve sujeitar o seu viver é o instinto, é o fogo da paixão. Reconhecerá, no entanto, a necessidade afectiva de Deus e da religião.
c)      Liberdade nos sentimentos. Diz Ortega y Gasset que, antes do romantismo, costumava o homem envergonhar-se das suas emoções, tão orgulhoso se sentia das suas ideias. A razão era, com efeito, um dique maciço e irremovível a conter a manifestação dos sentimentos, ainda mais os legítimos. O homem romântico dinamitou esse dique, para se deixar arrastar pelas mais violentas emoções.
3.      Angústia metafísica
O humanista julgava-se seguro na vida, com os dois pés bem assentes no mundo, depois de descobrir as leis da Natureza, que julgava perfeita, e sobretudo depois de ganhar a convicção de que ele a dominava e ela o servia. O romântico, encerrado no seu egocentrismo, perdeu toda a confiança na razão e nas suas possibilidades. A vida é para ele um problema insolúvel. O instinto mostra-lhe a toda a hora a existência de forças estranhas que ele não domina, que nem sequer conhece, e que, apesar de tudo, o conduzem pela existência adiante, como que arrastado por um cego destino. A Natureza, essa, contempla impassível a sua dor. A resolução dos seus problemas está longe, muito longe. O homem romântico levanta então os olhos para o infinito e para o absoluto que o homem clássico ignorou. Sente uma nostalgia intensa de algo distante no tempo e no espaço. Busca esse algo, quer atingi-lo, mas, quanto mais anda, mais longe o vê. Chega assim ao desespero. A inquietação febril e a angústia metafísica surgem inevitavelmente.
4.      O espírito idealista
Olhos fitos num mundo superior que a razão não sabe definir, o romântico começa a idealizar, a fazer de conta. Não se contenta com o prosaísmo das festas da Corte, com o indiferentismo irónico, com o cepticismo do século XVIII. O seu coração generoso deixa-se embalar num certo espiritualismo e vai lançar-se no culto da Humanidade, da Pátria, da mulher. E então encaminha toda a potencialidade do seu ser para a filantropia, para o patriotismo, para o amor. E fica a sonhar.
5.      O choque com a realidade: pessimismo e evasão
O romântico, como acabamos de ver, idealiza o mundo, construindo-o no ar, ou sobre castelos de areia. Quando baixa à terra, não encontra esse mundo. A Humanidade não o compreende; a Pátria, se for preciso, desterra-o; a mulher ou não é um anjo ou atraiçoa-o. Que há de fazer?
Deste choque brutal com a realidade provém o desengano e para esse desengano só existe uma solução: fugir. Uns fogem de terra em terra, como Chateaubriand, Byron e Garrett; outros refugiam-se  na Idade Média ou na paisagem do exótico Oriente, como Walter Scott, Herculano e Vítor Hugo; outros vão mais longe e suicidam-se, fugindo assim apressadamente para a eternidade, como Kleist, Nerval, Camilo, Antero, Trindade Coelho.
O que dissemos destes autores verifica-se mais ao pé da letra nos heróis criados ao abrigo dos cânones do romantismo: evadem-se no tempo e no espaço, refugiam-se no sonho e no fantástico, na orgia e na dissipação.»