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domingo, 12 de maio de 2013

Narrador

«Assim, o narrador é classificado como heterodiegético, se não é co-referencial com nenhuma das personagens da diegese, se não participa, por conseguinte, na história narrada. Como exemplos desse tipo de narradores, mencionaremos o narrador de Tom Jones, de Fielding, de L'éducation sentimentale, de Flaubert, ou de O primo Basílio, de Eça de Queirós. O narrador heterodiegético pode manifestar-se como um "eu" explícito ou como um narrador apagado, de "grau zero", fundido com o autor textual.
Se, pelo contrário, o narrador é co-referencial com uma das personagens da diegese, participando na história narrada, classificar-se-á como homodiegético. O narrador pode ser co-referencial com o protagonista do romance, como acontece, por exemplo, n' A relíquia, de Eça de Queirós, no Jogo da cabra cega, de José Cardoso Pires, ou na Aparição, de Vergílio Ferreira.»

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura

Tempo da diegese

«O tempo da diegese comporta um tempo objectivo, um tempo "público", delimitado e caracterizado por indicadores estritamente cronológicos atinentes ao calendário do ano civil - anos, meses, sem esquecer em certos casos as horas -, por informações relacionadas ainda com este calendário, mas apresentando sobretudo um significado cósmico - ritmo das estações, ritmo dos dias e das noites -, por dados concernentes a uma determinada época histórica, etc.»

Dois exemplos:

«Pelas cinco horas de uma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia de Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila» (Carlos de Oliveira, Uma abelha na chuva)

«Pelas nove da manhã desse dia de Setembro cheguei enfim à estação de Évora» (Vergílio Ferreira, Aparição)

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura

Princípio da causalidade

«A admissão ou a rejeição do princípio da causalidade, na vida real como na diegese romanesca, dependem fundamentalmente de uma visão do mundo, isto é, de uma ideologia. Esta problemática é assim analisada pelo narrador de Nítido nulo, romance de Vergílio Ferreira: «O princípio de causalidade. Não existe. Para pessoas não existe. Porque uma causa só é causa quando a gente quer que o seja. Se não quer que o seja, não é causa de nada. E é por isso que um juiz arreia num criminoso. Mas curiosamente, quando o advogado de defesa fala em «atenuantes», já acredita na causalidade. E o juiz também, que o ouve - um outro barco avança na linha do horizonte. Vem no mesmo sentido do primeiro, vão ambos para o norte, que é que haverá para o norte? Mas sem o princípio da causalidade não saberia contar nada. Há coisas que acontecem antes e outras que aconteceram depois; e o simples facto de contar uma antes e dizer que outras aconteceram depois faz entender que as que aconteceram depois vêm na força de sequência das que aconteceram antes. Como se aquilo que aconteceu, pelo facto de ter acontecido, tivesse de acontecer. E não tem. Mas para o sabermos teríamos de voltar atrás, o que não é possível» (Nítido nulo, Lisboa, Portugália Editora, 1971, p. 25).

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, Teoria da Literatura